Da catação à palavra pública: Viver a ExpoCatadores por dentro

Artigo escrito por Alexandro Cardoso, catador, cientista social, especialista em alternativas para uma nova educação, mestre e doutorando em Antropologia social. @alexcatador

Eu falo da ExpoCatadores a partir de um lugar vivido, construído com o corpo, com o tempo e com a luta. Participei de todas as edições desse que hoje é reconhecido como o maior evento de reciclagem popular do mundo, e posso afirmar que a ExpoCatadores não é apenas um evento anual: ela é um território político, pedagógico, cultural e afetivo onde a categoria se encontra para reafirmar quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir. É ali que a catação deixa de ser apenas sobrevivência e se transforma em palavra pública, em projeto coletivo e em horizonte de futuro.

A ExpoCatadores é organizada pelo Movimento Nacional das/os Catadoras/es de Materiais Recicláveis (MNCR), junto com suas instituições nacionais, a ANCAT e a Unicatadores. Essa forma de organização não é detalhe: ela garante que o centro do evento não seja ocupado por um nome, um líder, uma cooperativa ou um estado específico. A centralidade é da categoria, em toda a sua diversidade. Aqui, movimento social é entendido como aquilo que ele realmente é: plural, coletivo, construído por militantes de base, coordenadoras/es, articuladoras/es nacionais, homens e mulheres que fazem a reciclagem popular existir todos os dias.

Ao longo dos anos, a ExpoCatadores foi também se confundindo com a minha própria trajetória. Em 2021, lancei ali meu segundo livro, O eu catador. Em 2022, defendi minha dissertação de mestrado e recebi o título de primeiro catador mestre do Brasil das mãos do presidente Lula, um gesto que não foi individual, mas profundamente coletivo. Neste ano, lancei meu terceiro livro, Catando e Organizando. Cada um desses momentos aconteceu nesse espaço porque a ExpoCatadores reconhece a palavra das/os catadoras/es como conhecimento legítimo, como saber que nasce da prática e retorna para ela transformado em consciência política.

Protagonismo das mulheres catadoras

Registro do Painel “O Protagonismo das Mulheres Catadoras na Circularidade – Construindo Bem Viver”. Reprodução: ExpoCatadores.

Mas, se existe algo que faz da ExpoCatadores um espaço verdadeiramente revolucionário, é o protagonismo das mulheres catadoras. Nesse espaço comum, acontece talvez uma das maiores revoluções contemporâneas dentro do feminismo popular e do movimento de mulheres trabalhadoras. A ExpoCatadores fortalece as mulheres catadoras não apenas no discurso, mas na prática concreta, cotidiana, visível. Existe ali um espaço de referência — o stand de discussão das mulheres — que funciona ao mesmo tempo como lugar político, espaço de cuidado, beleza e reafirmação do protagonismo feminino na reciclagem popular.

É fundamental dizer com clareza: não é apenas uma unha sendo feita. É o cuidado com as mãos de quem recicla o mundo. Mãos que trabalham duro, que se machucam, que sustentam famílias, que organizam cooperativas, que educam a sociedade e que constroem políticas públicas a partir do chão. Não são apenas tranças nos cabelos. É o cuidado com a cabeça de quem pensa, planeja, decide e executa a reciclagem popular. Ali, o cuidado não é vaidade individual: é política. É reconhecimento do corpo que luta. É afirmação de identidade.

Mulheres catadoras enviam um recado à Presidência da República em publicação do Jornal Atualize no Instagram.

Esse espaço não trata apenas do autocuidado isolado. Ele afirma algo muito maior: as mulheres catadoras são sujeitas central da reciclagem popular. Sempre foram. Estiveram na base da organização, seguraram a estrutura quando tudo faltava, cuidaram dos filhos, do trabalho, da gestão e da luta ao mesmo tempo. O que a ExpoCatadores faz é tornar isso visível, legítimo e público. Ela cria um território onde as mulheres catadoras se reconhecem entre si, fortalecem sua autoestima coletiva e ocupam, com legitimidade, os espaços de decisão.

Quando eu olho para esse espaço, eu vejo a minha própria história atravessada por outras histórias. Vejo a minha avó, Dona Neca, já falecida, mulher catadora, forte, que enfrentou a dureza da vida com dignidade. Vejo a minha mãe, que esteve presente nesta edição e em quase todas as outras, caminhando comigo nesse território coletivo de luta e esperança. A ExpoCatadores transforma trajetórias individuais em memória coletiva, e essa memória é fundamental para sustentar a luta no presente e projetar o futuro.

A igualdade que vivemos e defendemos nesse espaço não é a negação das diferenças. Igualdade, para nós, é equidade. Por isso, as mulheres ocupam o palco. Não como ornamento, não como figura decorativa, mas como força política real. São elas que falam, que denunciam, que propõem, que negociam, que enfrentam conflitos e que garantem o avanço da categoria. A voz coletiva que ecoa na ExpoCatadores carrega, de forma muito forte, a voz das mulheres catadoras.

ExpoCatadores: Espaço de diálogo

A ExpoCatadores também é um espaço intenso de diálogo com empresas, governos e instituições financiadoras. É uma feira de negócios, sim, mas uma feira onde catadoras/es negociam de igual para igual, apresentando seus projetos, suas tecnologias sociais e suas soluções concretas para a gestão de resíduos. Esse diálogo só é possível porque a categoria chega organizada, consciente de sua força e amparada por uma identidade coletiva sólida — identidade essa profundamente marcada pela presença e liderança das mulheres.

Tenho muitas felicidades em participar da ExpoCatadores. Elas estão no abraço do reencontro, na conversa com as catadoras mais velhinhas que contam seus avanços e desafios, nos diálogos respeitosos com empresárias e gestores públicos que reconhecem a categoria como igual, no canto coletivo e na palavra de ordem que afirma a reciclagem popular como alternativa concreta para salvar o planeta. Mas, sobretudo, estão na certeza de que sem as mulheres catadoras, não existe reciclagem popular, não existe movimento, não existe futuro.

A ExpoCatadores, que começou embaixo do Viaduto do Glicério e hoje ocupa o Anhembi, mostra visualmente o avanço da categoria. Mas esse avanço não se mede apenas pelo espaço físico. Ele se mede pela consciência política, pela organização coletiva e pela centralidade das mulheres na luta. Por isso, eu afirmo com gratidão e convicção: obrigado, ExpoCatadores. Obrigado ao MNCR, à ANCAT e à Unicatadores. Nos veremos no próximo ano, porque enquanto houver mulheres e homens catadoras/es organizadas/os, haverá luta, haverá cuidado e haverá esperança sendo reciclada todos os dias.

Confira mais informações e fotos do evento no álbum em nossa galeria.

Quantos Catadores existem em atividade no Brasil?

[Reprodução de uma matéria de 2017 do Portal do MNCR]

A estimativa do MNCR é que existam cerca de 800 mil catadores catadoras em atividade no país, a maior parte dos catadores são do gênero feminino, cerca de 70% da categoria. Os catadores são responsáveis pela coleta de 90% de tudo que é reciclado hoje no Brasil. Há diversas estimativas de catadores variam entre 300 mil a 1 milhão de pessoas sobrevivendo da coleta de materiais recicláveis, segundo levantamento do MNCR e Departamento de Economia da Universidade Federal da Bahia – GERI,  2006. 

Sobre a divergência de dados do Censo/IBGE explicamos nesse artigo: Mulheres são maioria entre Catadores de Materiais Recicláveis

Documentário “Catadores RS na Resistência” retrata luta de catadores de materiais recicláveis para sobreviverem à enchente de maio

[Porto Alegre – RS] Você já assistiu ao documentário “Catadores RS na Resistência”? Este documentário promove a conscientização sobre a importância do trabalho dos catadores, preservar a memória e valorizar o esforço de superação das adversidades enfrentadas pelos coletivos.

O curta, gravado em julho de 2024, denuncia a exclusão da categoria pelas prefeituras da Região Metropolitana de Porto Alegre, mobilizando catadores e apoiadores na cobrança das gestões municipais por melhores condições de trabalho. “A gente optou por ajudar a resgatar os moradores, então deixamos todos os equipamentos. Danificou o caminhão, os maquinários. O bairro ficou 25 dias embaixo d’água, e todos os cooperados moram aqui”, conta Janaína Moura, da cooperativa Mãos Dadas, do bairro Fátima, de Canoas. “Todos os cooperados perderam tudo, além do nosso trabalho na cooperativa. A nossa renda, que era de R$1500, caiu para R$400.”

A emergência climática afeta de maneira desproporcional as cidades, atingindo mais as populações socialmente vulneráveis, como os trabalhadores da reciclagem. Um estudo de 2023 da WIEGO, organização internacional que atua no empoderamento de trabalhadores informais, demonstrou como 90% dos catadores de materiais recicláveis vivenciaram pelo menos um evento climático extremo no período de um ano.

Enquanto evitam a necessidade de extração de matérias-primas virgem por meio da reciclagem, reduzindo a emissão de gases do efeito estufa que causam as mudanças climáticas, os catadores sofrem com o racismo ambiental, morando e trabalhando em regiões de alta vulnerabilidade climática. O apoio do poder público municipal e das empresas poluidoras que fazem parte da cadeia produtiva de embalagens seria essencial em momentos como este, mas os catadores denunciam a sua inação.

“Sou a verdadeira médica da natureza. Minha mãe era recicladora, meu pai era prenseiro, e eu criei duas filhas com a reciclagem”, afirma Maria Elise, catadora autônoma da Vila Liberdade, no 4º Distrito de Porto Alegre. “A gente tá enfrentando um momento bem difícil, porque não temos um projeto para os catadores, que também deveriam ser reconhecidos. A gente existe, faz um serviço de graça pra natureza, mas, infelizmente, o nosso governo não olha pra isso.”

Sinopse do Documentário

“Catadores RS na Resistência” traz relatos de catadoras e catadores de materiais recicláveis afetados pelas enchentes de maio de 2024, registrando o processo de reconstrução da vida e do trabalho nas periferias. O filme busca preservar a memória e valorizar o esforço de superação das adversidades enfrentadas pelos coletivos, além de denunciar a invisibilidade da categoria promovida pelas gestões públicas.

Ficha Técnica

  • Tempo: 26 minutos
  • Produção: MNCR, 2024
  • Direção, Roteiro e Imagens: Davi Amorim
  • Piloto de Drone e Imagens: Cleyton Silva Cardoso / Mangat Imagens Aéreas
  • Produção e Logística: Fagner Jandrey
  • Administrativo: Lilian Nascimento

Assista ao documentário completo no YouTube:

Reconstrução Solidária: Projeto investe R$6,6 milhões em cooperativas e associações de catadores da Região Metropolitana de Porto Alegre

Um ano após a catástrofe climática que impactou 2,4 milhões de pessoas no RS, o Centro de Solidariedade, Apoio Mútuo e Meio Ambiente (Centro SAMA), em parceria com a Fundação Banco do Brasil, inicia o projeto Reconstrução Solidária. 

O projeto tem como objetivo auxiliar cooperativas e associações de catadores de materiais recicláveis que foram afetadas pela tragédia. Localizadas em comunidades periféricas, muitos trabalhadores das entidades perderam o local de moradia e de trabalho durante a enchente.

Com investimento de mais de 6 milhões de reais ao longo de 1 ano e meio, o Reconstrução Solidária trabalhará na reconstrução e melhoria da estrutura física, produtiva e logística de 16 empreendimentos de economia solidária em três municípios da Região Metropolitana.

Além das reformas estruturais, o projeto inclui a aquisição de veículos, máquinas e equipamentos, bem como o fornecimento de assessoria técnica para obtenção de licenças ambientais. O projeto também oferece serviços de apoio e gestão, em parceria com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, visando fortalecer a articulação, comunicação e formação socioambiental dos participantes.

“Dentre as participantes, há cooperativas que, em 30 anos de existência, nunca tiveram a oportunidade de ter um caminhão para realizar a coleta seletiva por conta própria”, afirma Cristiano Benites, presidente do Centro SAMA. “Esse projeto transforma a realidade dos catadores e de suas comunidades, unindo o território em defesa da reciclagem popular.”

Serão 477 catadores diretamente impactados pelo projeto, dentre eles, 67% mulheres catadoras, que são maioria nas associações e cooperativas a nível local e nacional. “Esse apoio chegou num momento que precisávamos muito manter os cooperados motivados. Nossa renda está muito baixa, tem meses que não chega a R$800”, afirma Núbia Vargas, presidente do Centro de Educação Ambiental e Reciclagem Sepé Tiaraju, que é a segunda geração de sua família trabalhando na reciclagem. “Minha mãe trabalha na cooperativa comigo, meus filhos dependem dessa renda, e as famílias de todos aqui também. Reconstruir não vai ser o suficiente, a gente precisa melhorar nossa condição de vida.”

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