Artigo escrito por Alexandro Cardoso, catador, cientista social, especialista em alternativas para uma nova educação, mestre e doutorando em Antropologia social – @alexcatador.
Neste ano, como em tantas viradas anteriores, uma enxurrada de imagens escancarou os resíduos deixados à beira-mar após as festividades. Nada de novo: é algo corriqueiro, que se repete ano após ano e, se nada for feito, seguirá acontecendo no próximo. O que muda são apenas as fotos e a indignação passageira, enquanto a lógica da produção excessiva e do descarte irresponsável segue intacta, naturalizada e tolerada pelo poder público.
Imagens mostram os resíduos da comemoração de Ano Novo deixados pela população na praia de Capão da Canoa, no litoral do Rio Grande do Sul. Reprodução: Fernando Berthold (@fernando_berthold).
Quero saber quantos prefeitos, secretárias e secretários de meio ambiente, empresas promotoras de eventos, grandes geradoras de resíduos, poluidoras e outros criminosos ambientais serão efetivamente responsabilizados. Quantos serão processados e condenados? O Ministério Público vai agir com firmeza ou seguirá sendo conivente com esse modelo de devastação anunciada, que transforma festas em cenas de crime ambiental sem consequência alguma?
A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, mostrou que outro caminho é possível. Não foi marcada apenas por estádios limpos, mas pela reciclagem de quase 100% dos resíduos gerados. A grande ação de impacto foi simples e concreta: a contratação das cooperativas de catadoras e catadores para o gerenciamento dos resíduos. Horas antes da abertura dos portões, elas e eles já estavam lá, organizando, orientando torcedores em várias línguas, distribuindo lixeiras e operando um sistema eficiente que chegava a quase dez toneladas recicladas por jogo.
A gestão de resíduos do Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, bloco de rua de São Paulo com mais de um milhão de participantes, foi realizada com catadoras e catadores de materiais recicláveis em 2025, por meio de uma parceria do Pimp My Carroça e Cataki com o Instituto Heineken e Amstel. Foto: Júlia Nagle | @ju.nagle / @catakiapp
Megaeventos, grandes ou pequenos — da festa da virada ao carnaval, de shows a feiras — precisam, obrigatoriamente, contratar cooperativas de catadoras e catadores. Onde elas e eles estão, a limpeza se organiza, a reciclagem acontece e a sustentabilidade deixa de ser discurso vazio. Basta de crimes ambientais, basta de racismo, desvalorização e invisibilização. Queremos justiça. A natureza somos nós — e seguimos lutando para defendê-la.
Créditos: Foto da imagem de capa de RicardoGomes_IMU, do Instituto Mar Urbano.
Artigo escrito por Alexandro Cardoso, catador, cientista social, especialista em alternativas para uma nova educação, mestre e doutorando em Antropologia social. @alexcatador
Eu falo da ExpoCatadores a partir de um lugar vivido, construído com o corpo, com o tempo e com a luta. Participei de todas as edições desse que hoje é reconhecido como o maior evento de reciclagem popular do mundo, e posso afirmar que a ExpoCatadores não é apenas um evento anual: ela é um território político, pedagógico, cultural e afetivo onde a categoria se encontra para reafirmar quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir. É ali que a catação deixa de ser apenas sobrevivência e se transforma em palavra pública, em projeto coletivo e em horizonte de futuro.
A ExpoCatadores é organizada pelo Movimento Nacional das/os Catadoras/es de Materiais Recicláveis (MNCR), junto com suas instituições nacionais, a ANCAT e a Unicatadores. Essa forma de organização não é detalhe: ela garante que o centro do evento não seja ocupado por um nome, um líder, uma cooperativa ou um estado específico. A centralidade é da categoria, em toda a sua diversidade. Aqui, movimento social é entendido como aquilo que ele realmente é: plural, coletivo, construído por militantes de base, coordenadoras/es, articuladoras/es nacionais, homens e mulheres que fazem a reciclagem popular existir todos os dias.
Ao longo dos anos, a ExpoCatadores foi também se confundindo com a minha própria trajetória. Em 2021, lancei ali meu segundo livro, O eu catador. Em 2022, defendi minha dissertação de mestrado e recebi o título de primeiro catador mestre do Brasil das mãos do presidente Lula, um gesto que não foi individual, mas profundamente coletivo. Neste ano, lancei meu terceiro livro, Catando e Organizando. Cada um desses momentos aconteceu nesse espaço porque a ExpoCatadores reconhece a palavra das/os catadoras/es como conhecimento legítimo, como saber que nasce da prática e retorna para ela transformado em consciência política.
Protagonismo das mulheres catadoras
Registro do Painel “O Protagonismo das Mulheres Catadoras na Circularidade – Construindo Bem Viver”. Reprodução: ExpoCatadores.
Mas, se existe algo que faz da ExpoCatadores um espaço verdadeiramente revolucionário, é o protagonismo das mulheres catadoras. Nesse espaço comum, acontece talvez uma das maiores revoluções contemporâneas dentro do feminismo popular e do movimento de mulheres trabalhadoras. A ExpoCatadores fortalece as mulheres catadoras não apenas no discurso, mas na prática concreta, cotidiana, visível. Existe ali um espaço de referência — o stand de discussão das mulheres — que funciona ao mesmo tempo como lugar político, espaço de cuidado, beleza e reafirmação do protagonismo feminino na reciclagem popular.
É fundamental dizer com clareza: não é apenas uma unha sendo feita. É o cuidado com as mãos de quem recicla o mundo. Mãos que trabalham duro, que se machucam, que sustentam famílias, que organizam cooperativas, que educam a sociedade e que constroem políticas públicas a partir do chão. Não são apenas tranças nos cabelos. É o cuidado com a cabeça de quem pensa, planeja, decide e executa a reciclagem popular. Ali, o cuidado não é vaidade individual: é política. É reconhecimento do corpo que luta. É afirmação de identidade.
Esse espaço não trata apenas do autocuidado isolado. Ele afirma algo muito maior: as mulheres catadoras são sujeitas central da reciclagem popular. Sempre foram. Estiveram na base da organização, seguraram a estrutura quando tudo faltava, cuidaram dos filhos, do trabalho, da gestão e da luta ao mesmo tempo. O que a ExpoCatadores faz é tornar isso visível, legítimo e público. Ela cria um território onde as mulheres catadoras se reconhecem entre si, fortalecem sua autoestima coletiva e ocupam, com legitimidade, os espaços de decisão.
Quando eu olho para esse espaço, eu vejo a minha própria história atravessada por outras histórias. Vejo a minha avó, Dona Neca, já falecida, mulher catadora, forte, que enfrentou a dureza da vida com dignidade. Vejo a minha mãe, que esteve presente nesta edição e em quase todas as outras, caminhando comigo nesse território coletivo de luta e esperança. A ExpoCatadores transforma trajetórias individuais em memória coletiva, e essa memória é fundamental para sustentar a luta no presente e projetar o futuro.
A igualdade que vivemos e defendemos nesse espaço não é a negação das diferenças. Igualdade, para nós, é equidade. Por isso, as mulheres ocupam o palco. Não como ornamento, não como figura decorativa, mas como força política real. São elas que falam, que denunciam, que propõem, que negociam, que enfrentam conflitos e que garantem o avanço da categoria. A voz coletiva que ecoa na ExpoCatadores carrega, de forma muito forte, a voz das mulheres catadoras.
ExpoCatadores: Espaço de diálogo
A ExpoCatadores também é um espaço intenso de diálogo com empresas, governos e instituições financiadoras. É uma feira de negócios, sim, mas uma feira onde catadoras/es negociam de igual para igual, apresentando seus projetos, suas tecnologias sociais e suas soluções concretas para a gestão de resíduos. Esse diálogo só é possível porque a categoria chega organizada, consciente de sua força e amparada por uma identidade coletiva sólida — identidade essa profundamente marcada pela presença e liderança das mulheres.
Tenho muitas felicidades em participar da ExpoCatadores. Elas estão no abraço do reencontro, na conversa com as catadoras mais velhinhas que contam seus avanços e desafios, nos diálogos respeitosos com empresárias e gestores públicos que reconhecem a categoria como igual, no canto coletivo e na palavra de ordem que afirma a reciclagem popular como alternativa concreta para salvar o planeta. Mas, sobretudo, estão na certeza de que sem as mulheres catadoras, não existe reciclagem popular, não existe movimento, não existe futuro.
A ExpoCatadores, que começou embaixo do Viaduto do Glicério e hoje ocupa o Anhembi, mostra visualmente o avanço da categoria. Mas esse avanço não se mede apenas pelo espaço físico. Ele se mede pela consciência política, pela organização coletiva e pela centralidade das mulheres na luta. Por isso, eu afirmo com gratidão e convicção: obrigado, ExpoCatadores. Obrigado ao MNCR, à ANCAT e à Unicatadores. Nos veremos no próximo ano, porque enquanto houver mulheres e homens catadoras/es organizadas/os, haverá luta, haverá cuidado e haverá esperança sendo reciclada todos os dias.
A reciclagem popular é a verticalização da cadeia produtiva através do avanço e controle das trabalhadoras e trabalhadores da reciclagem.
Reprodução: Rafael Costa / 2009
Éum processo que pensa a inclusão social, a distribuição da riqueza e dos conhecimentos, bem como a democratização das decisões a partir das trabalhadoras e trabalhadores organizados coletivamente ou em trabalhos individuais, como é o caso das catadoras e catadores de rua.
A reciclagem popular é importante para o mundo porque ela pensa numa outra perspectiva de mundo, em que a gente consiga considerar a natureza humana, da solidariedade, da partilha, da inclusão, do trabalho coletivo, que possa realmente dar frutos e esses frutos serem tanto produzidos como partilhados coletivamente.
E vai justamente ao contrário do que é a cadeia produtiva da reciclagem atualmente, em que se concentram os recursos. Se concentram as tecnologias, se concentra o poder na mão de poucos.
10% da reciclagem é feita pelos empresários e pela grande indústria recicladora – tanto nacional, como internacional. Mas, ao mesmo tempo em que concentram a renda e ficam com apenas 10% do trabalho, capturam a riqueza gerada por quem realiza 90% do trabalho, as catadoras e catadores de materiais recicláveis.
Liliane Soraya, vice-presidenta da Associação de Catadores de Iranduba, no lixão de Iranduba, município vizinho a Manaus/AM. Foto: Alnilam Orga | @alnilamorga
Catadores esses que são milhares de pessoas em diferentes situações. A maior parte delas em situação de grande vulnerabilidade, situação de pobreza e miséria extrema.
Catadores vivem em situações em que não têm casas adequadas ou legalizadas, vivem em ocupações ou, junto a parentes ou em vilas irregulares.
Têm o trabalho, muitos individualmente ou de forma coletiva, mas que não é reconhecido pelo governo, pelo poder, pela sociedade, pelas instituições. Em pouquíssimos casos, são organizados em associações e cooperativas que têm contrato.
Essas catadoras e catadores realizam 90% do trabalho, mas ficam com apenas 10% da riqueza.
Parede do galpão da Centcoop, Central de Cooperativas do Distrito Federal, graffitado no evento Pimp Nossa Cooperativa, em dezembro de 2023. Foto: Bella Montiel | Bruno Jungmann | Júlia Nagle | Raíssa Azeredo / @pimpmycarroca.
Então, a reciclagem popular é uma resposta para isso. É uma resposta que vai inclusive solucionar grandes problemas globais.
Um deles, por exemplo, como a questão do aquecimento global que vem através da mudanças climáticas, que superaquece o planeta, e que faz com que se desenfreiem as questões naturais.
Onde não era para ter chuva, chove muito, e acaba ocasionando secas maiores e queimadas. Enfim, o frio e essas intempéries que estão acelerando cada vez mais.
Comitê – Ação em Araraquara – Anastácia. Foto: Arquivo do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis.
Por último, a reciclagem popular não é só sobre reciclagem. A gente não quer produzir uma garrafa PET só para que essa garrafa seja reciclada. A reciclagem popular pensa numa perspectiva de fazer com que essa garrafa não seja produzida.
Mas então, os catadores estão jogando contra os próprios catadores?
A gente entende que, avançando no processo da cadeia produtiva da reciclagem, a gente avança também com o processo de consciência e de controle social coletivo, e que a gente vai atuar justamente no processo base da reciclagem que é a educação ambiental.
Essa educação ambiental é uma educação crítica que pensa a questão econômica, sociale ambiental. Logo, vai entender que a produção da matéria plástica e de outros materiais não devem nem ser feitos.
Ato Moradia Já! | Catadores e Pop. Rua, em São Paulo/SP. Dia 13 de maio de 2023. Foto: Júlia Nagle | @ju.nagle / @pimpmycarroca
Ao tempo em que a gente vai mudando a consciência humana em relação à questão dos resíduos:
A geração, gestão e destinação de resíduos. Quando a gente muda esse processo de não geração, por exemplo, a gente muda vários outros aspectos do pensamento.
Que, daqui a pouco, não seja necessário o processo de produzir tanto resíduo, e por não ter tanto resíduo produzido, não precisemos de tantas pessoas trabalhando nessas funções de reciclagem.
Assim, nós podemos trabalhar em outras funções, ou seja, melhorando o mundo e a natureza humana.
Sobre o autor
Alex Cardoso, Alex Catador, homem negro de 42 anos, é catador de materiais recicláveis, escritor, doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diretor de conteúdo do filme Catador@s de Histórias, liderança comunitária, membro da equipe de articulação nacional do Movimento Nacional das Catadoras e dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), membro da Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis da Cavalhada, Central de Cooperativas de Catadores de Porto Alegre e Região Metropolitana – Rede CATAPOA, Representante da Associação Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis no Rio Grande do Sul, também faz parte da equipe da Aliança Global de Catadores e da Rede Latinoamericana de Catadores de Materiais Recicláveis (Red Lacre).
Créditos das fotos
Arquivo Nacional do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.