Documentário “Catadores RS na Resistência” retrata luta de catadores de materiais recicláveis para sobreviverem à enchente de maio

[Porto Alegre – RS] Você já assistiu ao documentário “Catadores RS na Resistência”? Este documentário promove a conscientização sobre a importância do trabalho dos catadores, preservar a memória e valorizar o esforço de superação das adversidades enfrentadas pelos coletivos.

O curta, gravado em julho de 2024, denuncia a exclusão da categoria pelas prefeituras da Região Metropolitana de Porto Alegre, mobilizando catadores e apoiadores na cobrança das gestões municipais por melhores condições de trabalho. “A gente optou por ajudar a resgatar os moradores, então deixamos todos os equipamentos. Danificou o caminhão, os maquinários. O bairro ficou 25 dias embaixo d’água, e todos os cooperados moram aqui”, conta Janaína Moura, da cooperativa Mãos Dadas, do bairro Fátima, de Canoas. “Todos os cooperados perderam tudo, além do nosso trabalho na cooperativa. A nossa renda, que era de R$1500, caiu para R$400.”

A emergência climática afeta de maneira desproporcional as cidades, atingindo mais as populações socialmente vulneráveis, como os trabalhadores da reciclagem. Um estudo de 2023 da WIEGO, organização internacional que atua no empoderamento de trabalhadores informais, demonstrou como 90% dos catadores de materiais recicláveis vivenciaram pelo menos um evento climático extremo no período de um ano.

Enquanto evitam a necessidade de extração de matérias-primas virgem por meio da reciclagem, reduzindo a emissão de gases do efeito estufa que causam as mudanças climáticas, os catadores sofrem com o racismo ambiental, morando e trabalhando em regiões de alta vulnerabilidade climática. O apoio do poder público municipal e das empresas poluidoras que fazem parte da cadeia produtiva de embalagens seria essencial em momentos como este, mas os catadores denunciam a sua inação.

“Sou a verdadeira médica da natureza. Minha mãe era recicladora, meu pai era prenseiro, e eu criei duas filhas com a reciclagem”, afirma Maria Elise, catadora autônoma da Vila Liberdade, no 4º Distrito de Porto Alegre. “A gente tá enfrentando um momento bem difícil, porque não temos um projeto para os catadores, que também deveriam ser reconhecidos. A gente existe, faz um serviço de graça pra natureza, mas, infelizmente, o nosso governo não olha pra isso.”

Sinopse do Documentário

“Catadores RS na Resistência” traz relatos de catadoras e catadores de materiais recicláveis afetados pelas enchentes de maio de 2024, registrando o processo de reconstrução da vida e do trabalho nas periferias. O filme busca preservar a memória e valorizar o esforço de superação das adversidades enfrentadas pelos coletivos, além de denunciar a invisibilidade da categoria promovida pelas gestões públicas.

Ficha Técnica

  • Tempo: 26 minutos
  • Produção: MNCR, 2024
  • Direção, Roteiro e Imagens: Davi Amorim
  • Piloto de Drone e Imagens: Cleyton Silva Cardoso / Mangat Imagens Aéreas
  • Produção e Logística: Fagner Jandrey
  • Administrativo: Lilian Nascimento

Assista ao documentário completo no YouTube:

Reconstrução Solidária: Projeto investe R$6,6 milhões em cooperativas e associações de catadores da Região Metropolitana de Porto Alegre

Um ano após a catástrofe climática que impactou 2,4 milhões de pessoas no RS, o Centro de Solidariedade, Apoio Mútuo e Meio Ambiente (Centro SAMA), em parceria com a Fundação Banco do Brasil, inicia o projeto Reconstrução Solidária. 

O projeto tem como objetivo auxiliar cooperativas e associações de catadores de materiais recicláveis que foram afetadas pela tragédia. Localizadas em comunidades periféricas, muitos trabalhadores das entidades perderam o local de moradia e de trabalho durante a enchente.

Com investimento de mais de 6 milhões de reais ao longo de 1 ano e meio, o Reconstrução Solidária trabalhará na reconstrução e melhoria da estrutura física, produtiva e logística de 16 empreendimentos de economia solidária em três municípios da Região Metropolitana.

Além das reformas estruturais, o projeto inclui a aquisição de veículos, máquinas e equipamentos, bem como o fornecimento de assessoria técnica para obtenção de licenças ambientais. O projeto também oferece serviços de apoio e gestão, em parceria com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, visando fortalecer a articulação, comunicação e formação socioambiental dos participantes.

“Dentre as participantes, há cooperativas que, em 30 anos de existência, nunca tiveram a oportunidade de ter um caminhão para realizar a coleta seletiva por conta própria”, afirma Cristiano Benites, presidente do Centro SAMA. “Esse projeto transforma a realidade dos catadores e de suas comunidades, unindo o território em defesa da reciclagem popular.”

Serão 477 catadores diretamente impactados pelo projeto, dentre eles, 67% mulheres catadoras, que são maioria nas associações e cooperativas a nível local e nacional. “Esse apoio chegou num momento que precisávamos muito manter os cooperados motivados. Nossa renda está muito baixa, tem meses que não chega a R$800”, afirma Núbia Vargas, presidente do Centro de Educação Ambiental e Reciclagem Sepé Tiaraju, que é a segunda geração de sua família trabalhando na reciclagem. “Minha mãe trabalha na cooperativa comigo, meus filhos dependem dessa renda, e as famílias de todos aqui também. Reconstruir não vai ser o suficiente, a gente precisa melhorar nossa condição de vida.”

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Por que precisamos da Reciclagem Popular?

Por Alexandro Cardoso (@alexcatador)

A reciclagem popular é a verticalização da cadeia produtiva através do avanço e controle das trabalhadoras e trabalhadores da reciclagem.

Reprodução: Rafael Costa / 2009

É um processo que pensa a inclusão social, a distribuição da riqueza e dos conhecimentos, bem como a democratização das decisões a partir das trabalhadoras e trabalhadores organizados coletivamente ou em trabalhos individuais, como é o caso das catadoras e catadores de rua.

A reciclagem popular é importante para o mundo porque ela pensa numa outra perspectiva de mundo, em que a gente consiga considerar a natureza humana, da solidariedade, da partilha, da inclusão, do trabalho coletivo, que possa realmente dar frutos e esses frutos serem tanto produzidos como partilhados coletivamente.

E vai justamente ao contrário do que é a cadeia produtiva da reciclagem atualmente, em que se concentram os recursos. Se concentram as tecnologias, se concentra o poder na mão de poucos.

10% da reciclagem é feita pelos empresários e pela grande indústria recicladora – tanto nacional, como internacional. Mas, ao mesmo tempo em que concentram a renda e ficam com apenas 10% do trabalho, capturam a riqueza gerada por quem realiza 90% do trabalho, as catadoras e catadores de materiais recicláveis.

Liliane Soraya, vice-presidenta da Associação de Catadores de Iranduba, no lixão de Iranduba, município vizinho a Manaus/AM.
Foto: Alnilam Orga | @alnilamorga

Catadores esses que são milhares de pessoas em diferentes situações. A maior parte delas em situação de grande vulnerabilidade, situação de pobreza e miséria extrema.

Catadores vivem em situações em que não têm casas adequadas ou legalizadas, vivem em ocupações ou, junto a parentes ou em vilas irregulares.

Têm o trabalho, muitos individualmente ou de forma coletiva, mas que não é reconhecido pelo governo, pelo poder, pela sociedade, pelas instituições. Em pouquíssimos casos, são organizados em associações e cooperativas que têm contrato.

Essas catadoras e catadores realizam 90% do trabalho, mas ficam com apenas 10% da riqueza.

Parede do galpão da Centcoop, Central de Cooperativas do Distrito Federal, graffitado no evento Pimp Nossa Cooperativa, em dezembro de 2023.
Foto: Bella Montiel | Bruno Jungmann | Júlia Nagle | Raíssa Azeredo / @pimpmycarroca.

Então, a reciclagem popular é uma resposta para isso. É uma resposta que vai inclusive solucionar grandes problemas globais.

Um deles, por exemplo, como a questão do aquecimento global que vem através da mudanças climáticas, que superaquece o planeta, e que faz com que se desenfreiem as questões naturais.

Onde não era para ter chuva, chove muito, e acaba ocasionando secas maiores e queimadas. Enfim, o frio e essas intempéries que estão acelerando cada vez mais.

Comitê – Ação em Araraquara – Anastácia.
Foto: Arquivo do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis.

Por último, a reciclagem popular não é só sobre reciclagem. A gente não quer produzir uma garrafa PET só para que essa garrafa seja reciclada. A reciclagem popular pensa numa perspectiva de fazer com que essa garrafa não seja produzida.

  • Mas então, os catadores estão jogando contra os próprios catadores?

A gente entende que, avançando no processo da cadeia produtiva da reciclagem, a gente avança também com o processo de consciência e de controle social coletivo, e que a gente vai atuar justamente no processo base da reciclagem que é a educação ambiental.

Essa educação ambiental é uma educação crítica que pensa a questão econômica, social e ambiental. Logo, vai entender que a produção da matéria plástica e de outros materiais não devem nem ser feitos.

Ato Moradia Já! | Catadores e Pop. Rua, em São Paulo/SP. Dia 13 de maio de 2023.
Foto: Júlia Nagle | @ju.nagle / @pimpmycarroca

Ao tempo em que a gente vai mudando a consciência humana em relação à questão dos resíduos:

A geração, gestão e destinação de resíduos. Quando a gente muda esse processo de não geração, por exemplo, a gente muda vários outros aspectos do pensamento.

Que, daqui a pouco, não seja necessário o processo de produzir tanto resíduo, e por não ter tanto resíduo produzido, não precisemos de tantas pessoas trabalhando nessas funções de reciclagem.

Assim, nós podemos trabalhar em outras funções, ou seja, melhorando o mundo e a natureza humana.


Sobre o autor

Alex Cardoso, Alex Catador, homem negro de 42 anos, é catador de materiais recicláveis, escritor, doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diretor de conteúdo do filme Catador@s de Histórias, liderança comunitária, membro da equipe de articulação nacional do Movimento Nacional das Catadoras e dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), membro da Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis da Cavalhada, Central de Cooperativas de Catadores de Porto Alegre e Região Metropolitana – Rede CATAPOA, Representante da Associação Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis no Rio Grande do Sul, também faz parte da equipe da Aliança Global de Catadores e da Rede Latinoamericana de Catadores de Materiais Recicláveis (Red Lacre).


Créditos das fotos